quarta-feira, 3 de setembro de 2008

"Tudo é igual, mecânico e exacto"

Tudo é igual, mecânico e exacto.
Desde o caminho que todos pos dias fazemos,
Desde a mulher no seu décimo segundo parto.
Nunca mais ver iremos
Uma novidade, qual lufada de ar fresco,
Para rasgar este bolor que em nós ficou
Depois de uma vida sempre no mesmo contexto.

Tudo é igual, mecânico e exacto.
Todos os dias o girassol segue o astro-rei,
Todas as horas no mesmo lago nada o mesmo pato,
E em cada segundo, minuto que passa,
A monotonia instala-se na minha cabeça,
Quando a tua imagem me invade e traz desgraça.

Ó, quem me dera puder mudar este ciclo
Vicioso em que me afundo,
Em que a causalidade é a mãe da vida.
Mas só Deus é mecânico,
Só Deus é matemático,
Só Deus é cientista.

2005

Divinal e Fermosa Criatura

Divinal e fermosa criatura,
Que sonhos meus toda a noite atormenta.
São sentimentos que minh'alma enfrenta
Por amar uma beleza tão pura.

Sorriso de inocente frescura,
É por ti que meu coração fomenta
O amor que todo o meu corpo esquenta,
Fogo que me consome com brandura.

É nesse dilema que sempre estou,
Sob os ventos da deusa, um simples lenho
Por mares negros sempre a navegar.

Quando penso que tudo acentou,
Eis que surge outra arte, um noutro engenho
Pr'a mais fundo no mar me afogar.


2005

Odes ao estilo de Reis

I
Diz-me, Lídia,
Porque vertes essas lágrimas?
Para quê o sofrimento,
Se no derradeiro momento
Tudo o que fomos se apaga.

Diz-me, Lídia,
Porque ris entusiasta?
Para quê a euforia,
Se naquele último dia
Tudo o que somos se esquece.

É a vida
Apenas isto. É quem
Somos agora, e é tudo.
Devemos assim colher
Rosas, o dia. Serenos.





II
Aos Deuses apenas peço que me
Concedam a ciência necessária
Para, insciente,
O vil Fado conseguir aceitar.

Por isso, despir-me-ia de tudo
O que a minha lembrança encerrasse.
E assim, livre
Mais próximo do Olimpo chegaria.


2007

Crítica: "O Ano da Morte de Ricardo Reis", de José Saramago

A obra "O Ano da Morte de Ricardo Reis" de José Saramago é recheada de diálogos impossíveis e de situações improváveis. Aqui, o heterónimo erudito, volta a Lisboa após a morte de Fernando Pessoa. Ao longo de cerca de quatrocentas páginas, o Nobel leva-nos a uma fantástica viagem nos anos de 1935 e 36, onde nos descreve com o seu já inconfundível estilo, os últimos meses de uma vida que nunca começou.
Ricardo Reis, regressado do Brasil, instala-se num Hotel, onde começa uma relação carnal com a criada, e uma paixão platónica com uma hóspede. No meio disto, tem conversas com o “fantasma” de Fernando Pessoa, onde discutem, como velhos amigos, os problemas do mundo moderno e de cada um deles em particular.
Centrando agora a análise mais na pessoa de Ricardo Reis, esta obra é fiel à descrição que Pessoa faz do carácter deste heterónimo. Assim, Ricardo Reis é-nos apresentado como um senhor, “Pontual, quando ainda ecoava a última pancada das oito no relógio (…) Ricardo Reis desceu à sala de Jantar”; amante da ordem, “o Ricardo Reis limpo, barbeado”; monárquico “Ricardo Reis não precisa de tomar partido, esta batalha (…), não é a sua, o caso é entre republicanos e republicanos”.
Também na obra está presente o tipo de poesia e o processo poético deste heterónimo. Senão vejamos a seguinte passagem “(…)como se estivesse ordenando uma ode sáfica, laboriosamente lutando contra a métrica relutante”. Está aqui presente tanto o tipo de poemas que Reis escrevia – odes, como o processo, altamente elaborado que estas exigiam.
O classicismo de Reis também não foi deixado de parte. Ao longo de toda a obra há referências à mitologia grega, como se pode ver no seguinte excerto “Que vale, ao pé disto, o trabalho do divino ferreiro Hefestos, que nem ao menos se lembrou, tendo cinzelado e repuxado no escudo de Aquiles o universo inteiro (...)”. Mas também a simetria em “O gosto pela simetria, (…) corresponde a uma necessidade vital de equilíbrio, é uma defesa contra a queda”.
Pode afirmar-se, no entanto, que o verdadeiro Ricardo Reis, não se entregaria, tão de cabeça às paixões. Neste livro, vemos o poeta erudito demasiado preocupado com os amores. Até Fernando Pessoa estranha este Reis. Pois é, mas há uma diferença entre o que age e o que pensa. Senão vejamos “Marcenda tardou a escrever, daqui a poucos dias completa-se um mês que esteve nesta casa, onde, se acreditarmos nas suas próprias palavras, pela primeira vez foi beijada”. Este é o Ricardo Reis verdadeiro. O humano que se preocupa. Mas sendo ponderado e querendo mostrar aquilo em que acredita verdadeiramente – na atitude ataráxica, Reis age após ter pensado cuidadosamente na melhor forma de agir “Lá estive em Fátima, e ela condescendeu em querer saber, Ah, e então, gostou, como há-de Ricardo Reis responder, não é crente para ter experimentado êxtases e esforçar-se agora por explicar o que êxtases são, também não foi lá como simples curioso, por isso prefere resumir, generalizar, Muita gente, muito pó, tive de dormir ao relento(…)”. Deste modo, percebe-se que Saramago não se olvidou deste ponto.
Outro aspecto muito curioso deste livro, são as extensas conversas que Reis tem com Pessoa. O assunto varia muito. Mas é sempre com este, que aquele discute, os seus pensamentos mais eruditos. Na minha opinião, o Nobel reconstruiu na perfeição possíveis diálogos entre estes dois (que por vezes até falam dos outros heterónimos). Tomemos como exemplo, o seguinte excerto “Meu caro Reis, você é um esteta, íntimo de todas as deusas do Olimpo, abrir os lençóis da sua cama a uma criada de hotel, a uma serviçal, eu que me habituei a ouvi-lo falar a toda a hora, com admirável constância, das suas Lídias, Neeras e Cloes (…), Teve mais sorte que o Camões, esse, para ter uma Natércia precisou de inventar o nome e daí não passou(…)”.
Por fim, também é de salientar o apuradíssimo sentido de adequação histórica da obra. Saramago ao longo da sua obra põe as personagens a comentar e a viver acontecimentos históricos daquela época, conferindo uma verosimilhança impressionante a todo o ambiente envolvente, juntando realidade e ficção de uma forma fascinante.


2007

Dissertação: “O Fingimento poético é (no início do séc. XX) uma nova concepção de arte anti-romântica, despersonalizada”

A frase apresentada, embora muito breve, apresenta uma série de conceitos e ideias, que merecem uma análise mais pormenorizada. É por aí que começaremos, estabelecendo uma quase simultânea relação entre os vários elementos que a constituem, sendo esse o objectivo principal deste texto.
O “ Fingimento Poético” é entendido por Pessoa como uma modelação da realidade (visto que fingir, à letra significa modelar), ou seja, o Poeta cria uma realidade que o transcende. É este fingimento que, segundo Pessoa caracteriza os “graus da poesia lírica”. O último grau corresponde a uma despersonalização total do poeta, em que este cria uma nova personagem, com uma personalidade totalmente apartada da sua. Esta despersonalização só é possível graças ao intelecto do poeta, este objectiva as suas emoções. Esta teoria é expressa tanto em prosa como em verso pelo poeta. A título de exemplo, citaremos o poema “Autopsicografia”, em que o sujeito poético afirma: “O poeta é um fingidor / Finge tão completamente / Que chega a fingir que é dor / A dor quer deveras sente.”
Na frase é também referido o “anti-romantismo”. O romantismo foi uma corrente artística e literária do séc. XIX. Os românticos, acreditavam que as emoções eram a parte principal do ser humano, e como tal, valorizavam-nas nas suas obras, acima de outras características antropológicas. Outros dos principais valores inerentes ao romantismo era o sentido do “Eu”, ou seja, a pessoa. O próprio era muito mais importante. Basta lermos qualquer obra de Garrett, romântico português, como por exemplo na sua tragédia dramática “Frei Luís de Sousa”, para vermos estas características implícitas. Nesta obra, há uma menina chamada Maria, que tem intuições e visões, que são muito valorizadas, às vezes mesmo sobrepondo-se à razão.
Assim, podemos estabelecer um visível antagonismo entre o fingimento poético, proposto por Pessoa, onde o Poeta tenta atingir o mais elevado grau de despersonalização, utilizando para isso o intelecto, em oposição à valorização das emoções puras, próprias, propostas pelo romantismo. Podemos pois, tal como referido na frase, caracterizar o fingimento poético (sensacionismo), como um anti-romantismo.
Concluímos, enfim, fazendo relevância a esta visão de génio, que teve na poesia e que se estendeu à arte em geral, marcando assim uma nova concepção artística, no início do século passado.


2007

Artigo de Opinião: Memorial do Convento vs. Aparição

Sinceramente não percebo o câmbio de Aparição pelo Memorial do Convento no currículo da disciplina de Português no ensino secundário. E isto deve-se principalmente a dois factores.
Para começar, e isto é visível desde logo, o desprezo total pelas regras gramaticais levado a cabo pelo Nobel vai obviamente aliar-se ao desrespeito por estas mesmas regras pelos jovens, no uso das TIC. Todos sabemos que hoje em dia o uso de vulgarismos e a substituição de “qu’s” por “k’s” é cada vez mais frequente, e cada vez mais cedo implementada. Ora, a escola, como local privilegiado de ensino, deveria dar o exemplo, e insistir numa educação para uma escrita cuidada. Ainda por cima numa altura em que a polémica à volta da nova TLEBS, está no auge, mas disto falaremos noutra altura.
O segundo ponto refere-se aos temas tratados na obra. Eu penso que para jovens pré-universitários, temas como a dicotomia vida/morte, a descoberta do “Eu” e a reflexão sobre o absurdo do Mundo de Aparição, são bem mais pertinentes, do que o luxo versus pobreza ou o amor verdadeiro em oposição ao amor material que Saramago dá a reflectir na sua obra. Quantas pessoas, mesmo adultas, ainda não sabem aquilo que querem da vida, o seu propósito. Em última análise as questões metafísicas e morais ultrapassam as reflexões baseadas numa época longínqua que, embora algumas possam ser actuais, não têm tanto impacte nesta faixa etária.
Há quem diga que se trata de aulas de português e não de filosofia. Mas será que o único objectivo do ensino é formar profissionais? Não será o seu objectivo final educar pessoas, cidadãos conscientes? E para isso há que pôr cada tema em análise na altura apropriada.
Após tudo isto, tendo em conta a preservação da língua e a adequação dos temas tratados nas escolas, é óbvio que esta troca foi uma má aposta para o ensino português, como tantas outras.


2007
Na escola ensinam-nos
A ler, a escrever,
A física, os átomos.
Pena que não nos ensinem
As coisas da alma.

Pena que não nos ensinem
A ler os olhos,
A escrever o que sentimos,
A física da paixão,
Os átomos do amor.

Pois isso sim,
Seria ensinar-nos para a vida
Pois a vida não é mais
Do que aquilo que sentimos.
O fogo que arde sem se ver de Camões
É a beleza de Garrett.

É, para mim,
A indefinição definida
O infinito finito,
É amar, amar, amar…