Sinceramente não percebo o câmbio de Aparição pelo Memorial do Convento no currículo da disciplina de Português no ensino secundário. E isto deve-se principalmente a dois factores.
Para começar, e isto é visível desde logo, o desprezo total pelas regras gramaticais levado a cabo pelo Nobel vai obviamente aliar-se ao desrespeito por estas mesmas regras pelos jovens, no uso das TIC. Todos sabemos que hoje em dia o uso de vulgarismos e a substituição de “qu’s” por “k’s” é cada vez mais frequente, e cada vez mais cedo implementada. Ora, a escola, como local privilegiado de ensino, deveria dar o exemplo, e insistir numa educação para uma escrita cuidada. Ainda por cima numa altura em que a polémica à volta da nova TLEBS, está no auge, mas disto falaremos noutra altura.
O segundo ponto refere-se aos temas tratados na obra. Eu penso que para jovens pré-universitários, temas como a dicotomia vida/morte, a descoberta do “Eu” e a reflexão sobre o absurdo do Mundo de Aparição, são bem mais pertinentes, do que o luxo versus pobreza ou o amor verdadeiro em oposição ao amor material que Saramago dá a reflectir na sua obra. Quantas pessoas, mesmo adultas, ainda não sabem aquilo que querem da vida, o seu propósito. Em última análise as questões metafísicas e morais ultrapassam as reflexões baseadas numa época longínqua que, embora algumas possam ser actuais, não têm tanto impacte nesta faixa etária.
Há quem diga que se trata de aulas de português e não de filosofia. Mas será que o único objectivo do ensino é formar profissionais? Não será o seu objectivo final educar pessoas, cidadãos conscientes? E para isso há que pôr cada tema em análise na altura apropriada.
Após tudo isto, tendo em conta a preservação da língua e a adequação dos temas tratados nas escolas, é óbvio que esta troca foi uma má aposta para o ensino português, como tantas outras.
2007
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