A obra "O Ano da Morte de Ricardo Reis" de José Saramago é recheada de diálogos impossíveis e de situações improváveis. Aqui, o heterónimo erudito, volta a Lisboa após a morte de Fernando Pessoa. Ao longo de cerca de quatrocentas páginas, o Nobel leva-nos a uma fantástica viagem nos anos de 1935 e 36, onde nos descreve com o seu já inconfundível estilo, os últimos meses de uma vida que nunca começou.
Ricardo Reis, regressado do Brasil, instala-se num Hotel, onde começa uma relação carnal com a criada, e uma paixão platónica com uma hóspede. No meio disto, tem conversas com o “fantasma” de Fernando Pessoa, onde discutem, como velhos amigos, os problemas do mundo moderno e de cada um deles em particular.
Centrando agora a análise mais na pessoa de Ricardo Reis, esta obra é fiel à descrição que Pessoa faz do carácter deste heterónimo. Assim, Ricardo Reis é-nos apresentado como um senhor, “Pontual, quando ainda ecoava a última pancada das oito no relógio (…) Ricardo Reis desceu à sala de Jantar”; amante da ordem, “o Ricardo Reis limpo, barbeado”; monárquico “Ricardo Reis não precisa de tomar partido, esta batalha (…), não é a sua, o caso é entre republicanos e republicanos”.
Também na obra está presente o tipo de poesia e o processo poético deste heterónimo. Senão vejamos a seguinte passagem “(…)como se estivesse ordenando uma ode sáfica, laboriosamente lutando contra a métrica relutante”. Está aqui presente tanto o tipo de poemas que Reis escrevia – odes, como o processo, altamente elaborado que estas exigiam.
O classicismo de Reis também não foi deixado de parte. Ao longo de toda a obra há referências à mitologia grega, como se pode ver no seguinte excerto “Que vale, ao pé disto, o trabalho do divino ferreiro Hefestos, que nem ao menos se lembrou, tendo cinzelado e repuxado no escudo de Aquiles o universo inteiro (...)”. Mas também a simetria em “O gosto pela simetria, (…) corresponde a uma necessidade vital de equilíbrio, é uma defesa contra a queda”.
Pode afirmar-se, no entanto, que o verdadeiro Ricardo Reis, não se entregaria, tão de cabeça às paixões. Neste livro, vemos o poeta erudito demasiado preocupado com os amores. Até Fernando Pessoa estranha este Reis. Pois é, mas há uma diferença entre o que age e o que pensa. Senão vejamos “Marcenda tardou a escrever, daqui a poucos dias completa-se um mês que esteve nesta casa, onde, se acreditarmos nas suas próprias palavras, pela primeira vez foi beijada”. Este é o Ricardo Reis verdadeiro. O humano que se preocupa. Mas sendo ponderado e querendo mostrar aquilo em que acredita verdadeiramente – na atitude ataráxica, Reis age após ter pensado cuidadosamente na melhor forma de agir “Lá estive em Fátima, e ela condescendeu em querer saber, Ah, e então, gostou, como há-de Ricardo Reis responder, não é crente para ter experimentado êxtases e esforçar-se agora por explicar o que êxtases são, também não foi lá como simples curioso, por isso prefere resumir, generalizar, Muita gente, muito pó, tive de dormir ao relento(…)”. Deste modo, percebe-se que Saramago não se olvidou deste ponto.
Outro aspecto muito curioso deste livro, são as extensas conversas que Reis tem com Pessoa. O assunto varia muito. Mas é sempre com este, que aquele discute, os seus pensamentos mais eruditos. Na minha opinião, o Nobel reconstruiu na perfeição possíveis diálogos entre estes dois (que por vezes até falam dos outros heterónimos). Tomemos como exemplo, o seguinte excerto “Meu caro Reis, você é um esteta, íntimo de todas as deusas do Olimpo, abrir os lençóis da sua cama a uma criada de hotel, a uma serviçal, eu que me habituei a ouvi-lo falar a toda a hora, com admirável constância, das suas Lídias, Neeras e Cloes (…), Teve mais sorte que o Camões, esse, para ter uma Natércia precisou de inventar o nome e daí não passou(…)”.
Por fim, também é de salientar o apuradíssimo sentido de adequação histórica da obra. Saramago ao longo da sua obra põe as personagens a comentar e a viver acontecimentos históricos daquela época, conferindo uma verosimilhança impressionante a todo o ambiente envolvente, juntando realidade e ficção de uma forma fascinante.
2007
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